Onde estão os votos que ainda podem ser conquistados em Sergipe: abstenções, brancos e nulos no 1º turno de 2026
Lula venceu nos 75 municípios de Sergipe, com 62,7% dos votos válidos. Mesmo assim, 375.882 eleitores não deram voto válido a nenhum candidato, o equivalente a 86% da vantagem de Lula sobre Flávio Bolsonaro no estado. Este estudo procura onde esses eleitores estão, nos municípios e, quando os dados permitem, nos bairros, e quanto desse grupo pode, de forma realista, ser convertido em votos para Lula.
O ponto de partida: Lula vence, mas a margem é finita
No primeiro turno da eleição presidencial de 2026, Sergipe votou assim:
- Lula (13): 856.019 votos, ou 62,7% dos votos válidos
- Flávio Bolsonaro (22): 417.839 votos, ou 30,6%
- Outros onze candidatos: juntos, 90.395 votos, cerca de 6,6%
Quando esses números são abertos por município, o estado aparece inteiro em vermelho. Lula foi o mais votado nos 75 municípios, e passou de 60% dos votos válidos em 66 deles e de 70% em 30. As menores margens estão nos maiores centros: Aracaju (54,1% a 37,3%), Frei Paulo (56,5% a 38,0%), Nossa Senhora do Socorro (55,3% a 36,6%) e Itabaiana (55,7% a 36,9%). A maior está em Santo Amaro das Brotas (79,7% a 15,9%). No estado todo, a vantagem de Lula é de 438.180 votos.
Nos 11 municípios em que a malha do IBGE traz bairros, que juntos reúnem 54,9% dos eleitores do estado, o mapa troca de escala ao aproximar. Lá, a vitória de Lula também é ampla: ele foi o mais votado em 148 dos 151 bairros com local de votação. Flávio venceu apenas em três, todos em Aracaju, por margens apertadas: Treze de Julho (49,1% a 40,7%), Jardins (48,9% a 41,2%) e Salgado Filho (47,4% a 43,3%).
A vitória é ampla, mas ela não esgota a questão. O que define quanto Lula ainda pode crescer em Sergipe é o grupo de eleitores que não escolheu ninguém.
O tamanho da oportunidade
No primeiro turno, 375.882 eleitores sergipanos, 21,6% dos 1.740.135 aptos, não deram voto válido a nenhum candidato:
- 301.053 abstenções, 17,3% dos eleitores aptos
- 49.970 votos nulos, 3,5% de quem compareceu
- 24.859 votos brancos, 1,7% de quem compareceu
Esse grupo equivale a 86% da vantagem de Lula sobre Flávio no estado (438.180 votos). Não significa que todos possam ser conquistados, mas dimensiona onde vale procurar.
Onde estão: o volume
Em números absolutos, o grupo se concentra nos maiores municípios, e todos eles já votam majoritariamente em Lula:
| Município | Abstenções, brancos e nulos | % dos aptos | Votos em Lula |
|---|---|---|---|
| Aracaju | 86.494 | 20,5% | 54,1% |
| Nossa Senhora do Socorro | 24.794 | 20,0% | 55,3% |
| Lagarto | 16.417 | 19,9% | 65,3% |
| Itabaiana | 15.301 | 20,0% | 55,7% |
| São Cristóvão | 12.621 | 20,4% | 61,3% |
| Estância | 12.112 | 23,8% | 69,3% |
| Tobias Barreto | 8.553 | 20,0% | 63,4% |
| Simão Dias | 8.354 | 22,5% | 67,7% |
Os três maiores (Aracaju, Nossa Senhora do Socorro e Lagarto) reúnem 34,0% desse grupo, quase a mesma fatia que têm dos eleitores (36,1%). Os dez maiores reúnem 53,0%, contra 54,9% dos aptos. Não há um município decisivo: o esforço precisa ser distribuído, e os maiores simplesmente somam mais. Só Aracaju concentra 23% do grupo.
Nos bairros dos municípios mapeados, o volume se concentra na capital e em Lagarto:
| Bairro | Abstenções, brancos e nulos | % dos aptos | Votos em Lula |
|---|---|---|---|
| Farolândia (Aracaju) | 8.281 | 20,4% | 54,0% |
| Santos Dumont (Aracaju) | 5.364 | 21,9% | 53,3% |
| Horta (Lagarto) | 4.974 | 21,4% | 68,6% |
| Santa Maria (Aracaju) | 4.475 | 23,5% | 59,7% |
| Dezoito do Forte (Aracaju) | 4.180 | 20,6% | 54,2% |
| Industrial (Aracaju) | 3.917 | 20,1% | 54,0% |
Onde pesa mais: a proporção
O mapa abaixo mostra a taxa de abstenção por município. Ela vai de 13,2% (Feira Nova) a 25,3% (Santo Amaro das Brotas), com média de 17,3% no estado. Ao dar zoom nos municípios com bairros, a escala passa a ser a do bairro, que vai de 12,9% (Laudelino Freire, em Lagarto) a 25,3% entre os bairros com mais de 3 mil eleitores.
Quando se somam abstenções, brancos e nulos e se compara com os eleitores aptos, os municípios com mais de 5 mil eleitores em que o grupo pesa mais são:
- Santo Amaro das Brotas: 28,5% (Lula 79,7%)
- Carmópolis: 27,9% (Lula 64,6%)
- São Domingos: 27,2% (Lula 62,7%)
- Capela: 27,1% (Lula 65,8%)
- Canindé de São Francisco: 27,1% (Lula 70,6%)
A média do estado é de 21,6%. Em todos esses municípios Lula já vence com ampla vantagem, o que os torna prioritários para quem quer ampliar a base sem depender de convencer o eleitor do adversário. Estância une as duas dimensões: é o sexto maior grupo em volume (12.112) e tem 23,8% dos aptos nessa condição, com Lula em 69,3%.
Entre os bairros com mais de 3 mil eleitores, os que mais se destacam são Comendador Travassos, único bairro de Santo Amaro das Brotas na malha (28,5%), Valter Cardozo Costa (26,8%) e Alecrim (25,3%), em Estância, e, em Aracaju, Cidade Nova (25,9%) e Porto Dantas (25,2%).
Brancos e nulos: pouco volume, ação direta
Entre os que foram votar, 74.829 votaram em branco ou anularam, 5,2% do comparecimento. A taxa varia de 3,4% a 8,3% entre os municípios. Entre os que têm mais de 5 mil eleitores:
- Mais brancos e nulos: Moita Bonita (8,3%), São Domingos (7,5%), Itabaiana (7,1%), Ribeirópolis (7,0%) e Simão Dias (6,6%)
- Menos brancos e nulos: Graccho Cardoso (3,8%), Cedro de São João e Cristinápolis (3,9%)
Itabaiana mostra como as dimensões se separam: tem uma das menores taxas de abstenção do estado (13,8%), mas uma das maiores de brancos e nulos. Quem olha só para o comparecimento não vê esse problema.
A correlação entre a taxa de brancos e nulos e a votação em Lula nos municípios é de -0,45: onde Lula é mais forte, os votos tendem a ser um pouco mais válidos, o oposto do que se vê em Aracaju e em Boquim quando analisados isoladamente. É um padrão entre municípios e não explica o comportamento do eleitor. Os dados também não dizem por que alguém vota em branco ou anula. Pode ser protesto, indecisão ou erro na urna, e se parte for erro, orientar o voto é uma das ações mais diretas para recuperar esses votos.
Simulação: quanto rende mobilizar
Para dimensionar o ganho possível, duas simulações simples, com a premissa de que os eleitores trazidos de volta votariam como os atuais de cada município:
- Abstenção: se todos os municípios chegassem ao nível do melhor entre os de mais de 5 mil eleitores, Feira Nova (13,2%), entrariam cerca de 72.037 eleitores. Lula ganharia 46.913 votos e Flávio, 20.651, um saldo de 26.262 votos para Lula.
- Brancos e nulos: se 10% deles virassem voto válido, seriam 7.483 votos, dos quais cerca de 4.684 para Lula e 2.303 para Flávio.
A lição é que mobilizar sem direcionar rende pouco, porque o eleitor que volta também pode votar no adversário. O ganho depende de quem é alcançado, e não só de quantos: em Santo Amaro das Brotas, onde Lula tem 79,7% dos votos, cada ausente trazido de volta tem muito mais chance de render voto para ele do que em Aracaju, onde Flávio tem 37,3%.
O que esses dados não respondem
- Em quem os ausentes votariam. Não existe dado individual de abstenção. A correlação entre a taxa de abstenção e a vantagem de Lula nos municípios é de 0,38: a abstenção tende a ser um pouco maior onde ele tem mais vantagem, o que é animador, mas é um padrão fraco e não garante que o ausente seja eleitor de Lula.
- Quanto da abstenção é voto facultativo. Analfabetos, jovens de 16 e 17 anos e maiores de 70 anos não são obrigados a votar. Parte da abstenção é escolha legal, e não descaso, e é mais difícil de converter. Este estudo não mede essa parcela.
- Por que votaram em branco ou anularam.
- Onde o eleitor mora. Os votos por bairro usam o local de votação, e as seções da zona rural foram associadas ao bairro mais próximo.
- O que acontece nos 64 municípios sem bairros. A malha do IBGE só traz bairros para 11 municípios, então nos demais a análise para no município.
Por onde começar
- Volume: Aracaju, Nossa Senhora do Socorro e Lagarto, onde estão mais eleitores sem voto válido, com atenção aos bairros Farolândia, Santos Dumont e Santa Maria, na capital.
- Proporção: Santo Amaro das Brotas, Carmópolis, São Domingos, Capela, Canindé de São Francisco e Estância, onde o grupo pesa mais e Lula já é folgadamente favorito.
- Brancos e nulos: orientação de voto em Moita Bonita, São Domingos, Itabaiana, Ribeirópolis e Simão Dias.
- Validar: cruzar com o perfil do eleitorado por município e bairro (idade, escolaridade, gênero) e com pesquisa de campo, para saber quem são os ausentes, quais deles votam por obrigação e em quem votariam.
Como os dados foram tratados
- Fontes: TSE (dados abertos de locais de votação), Base dos Dados (resultados e abstenções por seção) e malhas de setores e bairros do IBGE (Censo 2022).
- Votos por município: os votos e as abstenções de cada seção foram somados por município (código IBGE). O contorno dos municípios é a união dos setores censitários.
- Votos por bairro: o TSE informa o local de votação de cada seção. Nos 11 municípios com bairros no IBGE, cada local foi associado ao bairro mais próximo dentro do próprio município, e os votos foram somados. O eleitor nem sempre mora perto de onde vota, então os números por bairro são uma aproximação. Dos 185 bairros da malha, 151 têm algum local de votação.
- Percentuais: os de voto são calculados sobre os votos dados aos candidatos. As taxas de brancos e nulos usam os eleitores que compareceram, e a soma de abstenções, brancos e nulos usa os eleitores aptos.
- Simulações: partem da premissa de que os eleitores trazidos de volta votariam como os atuais de cada município. São ordens de grandeza, e não previsões.
- Cores do primeiro mapa: mostram só quem foi o mais votado. Uma vitória de 5 pontos e uma de 35 têm a mesma cor, então vale conferir o hover.
- Unidades pequenas: municípios e bairros com poucos eleitores têm percentuais que variam muito. Os rankings de proporção consideram apenas municípios com mais de 5 mil eleitores e bairros com mais de 3 mil.
Análise feita em Python (pandas, geopandas e plotly).
Quem sou eu
Oi, eu sou o Luiz Felipe. Trabalho como cientista de dados no Grupo Boticário e ainda estou na estrada da Ciência da Computação na Universidade Federal de Sergipe. Fora das telas, sou angoleiro na Lineart Capoeira Angola e nacionalista negro, de orientação Garveyista.