Onde estão os votos que ainda podem ser conquistados em Aracaju: abstenções, brancos e nulos no 1º turno de 2026
Lula venceu em 40 dos 43 bairros de Aracaju, mas 86.494 eleitores não deram voto válido a nenhum candidato. É 1,5 vez a vantagem de Lula sobre Flávio Bolsonaro na cidade. Este estudo procura onde esses eleitores estão e quanto desse grupo pode, de forma realista, ser convertido em votos para Lula.
O ponto de partida: Lula vence, mas a margem é finita
No primeiro turno da eleição presidencial de 2026, Aracaju votou assim:
- Lula (13): 181.481 votos, ou 54,1% dos votos válidos
- Flávio Bolsonaro (22): 125.252 votos, ou 37,3%
- Outros dez candidatos: juntos, cerca de 8,6%
Quando esses números são abertos por bairro, a cidade aparece quase toda em vermelho. Lula foi o mais votado em 40 dos 43 bairros. Flávio venceu apenas em Treze de Julho, Jardins e Salgado Filho, todos por margens apertadas, de 4 a 8 pontos. Na cidade toda, a vantagem de Lula é de 56.229 votos.
Passe o mouse sobre um bairro e o mapa mostra quantos votos cada candidato recebeu. A vitória é ampla, mas ela não esgota a questão. O que define quanto Lula ainda pode crescer em Aracaju é o grupo de eleitores que não escolheu ninguém.
O tamanho da oportunidade
No primeiro turno, 86.494 eleitores de Aracaju, 20,5% dos aptos, não deram voto válido a nenhum candidato:
- 69.977 abstenções, 16,6% dos 422.179 eleitores aptos
- 10.678 votos nulos, 3,0% de quem compareceu
- 5.839 votos brancos, 1,7% de quem compareceu
Esse grupo equivale a 1,5 vez a vantagem de Lula sobre Flávio na cidade (56.229 votos). Não significa que todos possam ser conquistados, mas dimensiona onde vale procurar.
Onde estão: o volume
Em números absolutos, o grupo se concentra nos maiores bairros, e todos eles já votam majoritariamente em Lula:
| Bairro | Abstenções, brancos e nulos | Votos em Lula |
|---|---|---|
| Farolândia | 8.281 | 54,0% |
| Santos Dumont | 5.364 | 53,3% |
| Santa Maria | 4.475 | 59,7% |
| Dezoito do Forte | 4.180 | 54,2% |
| Industrial | 3.917 | 54,0% |
Os dez maiores bairros reúnem 48,9% desse grupo, quase a mesma fatia que têm dos eleitores (48,3%). Não há um bairro decisivo: o esforço precisa ser distribuído, e os maiores simplesmente somam mais.
Onde pesa mais: a proporção
O mapa abaixo mostra a taxa de abstenção por bairro. Entre os bairros com mais de 3 mil eleitores, ela vai de 14,2% (América) a 21,4% (Cidade Nova).
Quando se somam abstenções, brancos e nulos e se compara com os eleitores aptos, os bairros em que o grupo pesa mais são:
- Cidade Nova: 25,9% (Lula 54,4%)
- Porto Dantas: 25,2% (Lula 58,7%)
- Santo Antônio: 24,6% (Lula 57,0%)
- 17 de Março: 23,8% (Lula 57,8%)
- Lamarão: 23,5% (Lula 57,6%)
A média da cidade é de 20,5%. Em todos esses bairros Lula já vence com ampla vantagem, o que os torna prioritários para quem quer ampliar a base sem depender de convencer o eleitor do adversário.
Brancos e nulos: concentrados onde Lula é mais forte
Entre os que foram votar, 16.517 votaram em branco ou anularam, 4,7% do comparecimento. A distribuição é muito desigual:
- Mais brancos e nulos: Lamarão (7,0%), Santa Maria (6,9%), Porto Dantas (6,6%) e Jardim Centenário (6,5%)
- Menos brancos e nulos: São José e Jardins (2,2%) e Salgado Filho (2,5%)
A correlação entre a taxa de brancos e nulos e a votação em Lula nos bairros é de 0,78: onde Lula é mais forte, mais votos deixam de ser válidos. É um padrão entre bairros, e não prova que o eleitor de Lula seja o que mais anula. Os dados também não dizem por que isso acontece. Pode ser protesto, indecisão ou erro na urna, e se parte for erro, orientar o voto é uma das ações mais diretas para recuperar esses votos.
Simulação: quanto rende mobilizar
Para dimensionar o ganho possível, duas simulações simples, com a premissa de que os eleitores trazidos de volta votariam como os atuais de cada bairro:
- Abstenção: se todos os bairros chegassem ao nível do melhor, América (14,2%), entrariam cerca de 10.066 eleitores. Lula ganharia 5.197 votos e Flávio, 3.563, um saldo de 1.633 votos para Lula.
- Brancos e nulos: se 10% deles virassem voto válido, seriam 1.651 votos, dos quais cerca de 905 para Lula.
A lição é que mobilizar sem direcionar rende pouco, porque o eleitor que volta também pode votar no adversário. O ganho depende de quem é alcançado, e não só de quantos.
O que esses dados não respondem
- Em quem os ausentes votariam. Não existe dado individual de abstenção. A correlação entre a taxa de abstenção e a vantagem de um candidato nos bairros é praticamente zero (-0,02), então um bairro pró-Lula não garante que o ausente seja eleitor de Lula.
- Por que votaram em branco ou anularam.
- Onde o eleitor mora. Os votos por bairro usam o local de votação.
Por onde começar
- Volume: Farolândia, Santos Dumont, Santa Maria e Dezoito do Forte, onde estão mais eleitores sem voto válido.
- Proporção: Cidade Nova, Porto Dantas, Santo Antônio, 17 de Março e Lamarão, onde o grupo pesa mais.
- Brancos e nulos: orientação de voto em Santa Maria, Lamarão e Porto Dantas.
- Validar: cruzar com o perfil do eleitorado por bairro (idade, escolaridade, gênero) e com pesquisa de campo, para saber quem são os ausentes e em quem votariam.
Como os dados foram tratados
- Fontes: TSE (dados abertos de eleitorado e locais de votação), Base dos Dados (resultados e abstenções por seção) e malha de bairros do IBGE (Censo 2022).
- Votos por bairro: o TSE informa o local de votação de cada seção. Cada local foi associado ao bairro do IBGE em que fica, e os votos foram somados. O eleitor nem sempre mora perto de onde vota, então os números por bairro são uma aproximação.
- Percentuais: os de voto são calculados sobre os votos dados aos candidatos. As taxas de brancos e nulos usam os eleitores que compareceram, e a soma de abstenções, brancos e nulos usa os eleitores aptos.
- Simulações: partem da premissa de que os eleitores trazidos de volta votariam como os atuais de cada bairro. São ordens de grandeza, e não previsões.
- Cores do primeiro mapa: mostram só quem foi o mais votado. Uma vitória de 5 pontos e uma de 35 têm a mesma cor, então vale conferir o hover.
- Bairros pequenos: bairros com poucos eleitores, como Treze de Julho, têm percentuais que variam muito.
Análise feita em Python (pandas, geopandas e plotly). O código está disponível no repositório.
Quem sou eu
Oi, eu sou o Luiz Felipe. Trabalho como cientista de dados no Grupo Boticário e ainda estou na estrada da Ciência da Computação na Universidade Federal de Sergipe. Fora das telas, sou angoleiro na Lineart Capoeira Angola e nacionalista negro, de orientação Garveyista.