Onde estão os votos que ainda podem ser conquistados em Boquim: abstenções, brancos e nulos no 1º turno de 2026
Lula venceu nos sete bairros de Boquim, com 66,3% dos votos válidos. Mesmo assim, 5.123 eleitores não deram voto válido a nenhum candidato, o equivalente a 79% da vantagem de Lula sobre Flávio Bolsonaro no município. Este estudo procura onde esses eleitores estão e quanto desse grupo pode, de forma realista, ser convertido em votos para Lula.
O ponto de partida: Lula vence, mas a margem é finita
No primeiro turno da eleição presidencial de 2026, Boquim votou assim:
- Lula (13): 11.208 votos, ou 66,3% dos votos válidos
- Flávio Bolsonaro (22): 4.736 votos, ou 28,0%
- Outros candidatos: juntos, 961 votos, cerca de 5,7%
Quando esses números são abertos por bairro, o município aparece inteiro em vermelho. Lula foi o mais votado nos sete bairros. A menor margem está em Boquim Velho (60,0% a 34,0%), e a maior em Temístocles de Santana (80,6% a 14,3%). No município todo, a vantagem de Lula é de 6.472 votos.
Passe o mouse sobre um bairro e o mapa mostra quantos votos cada candidato recebeu. A vitória é ampla, mas ela não esgota a questão. O que define quanto Lula ainda pode crescer em Boquim é o grupo de eleitores que não escolheu ninguém.
O tamanho da oportunidade
No primeiro turno, 5.123 eleitores de Boquim, 23,3% dos 22.028 aptos, não deram voto válido a nenhum candidato:
- 4.192 abstenções, 19,0% dos eleitores aptos
- 638 votos nulos, 3,6% de quem compareceu
- 293 votos brancos, 1,6% de quem compareceu
Esse grupo equivale a 79% da vantagem de Lula sobre Flávio no município (6.472 votos). Não significa que todos possam ser conquistados, mas dimensiona onde vale procurar. Em um município com 81 seções eleitorais, é um universo que uma campanha consegue, em tese, alcançar de porta em porta.
Onde estão: o volume
Em números absolutos, o grupo se concentra nos maiores bairros, e todos eles já votam majoritariamente em Lula:
| Bairro | Abstenções, brancos e nulos | % dos aptos | Votos em Lula |
|---|---|---|---|
| Horácio Fernandes Fontes | 1.450 | 22,4% | 63,4% |
| Centro | 826 | 22,4% | 61,4% |
| Miguel dos Anjos | 808 | 25,1% | 69,5% |
| Simpliciano Fernandes Filho | 587 | 22,8% | 70,6% |
| Padre José Gumercindo | 558 | 24,7% | 71,9% |
| Boquim Velho | 516 | 21,3% | 60,0% |
| Temístocles de Santana | 378 | 26,6% | 80,6% |
Os três maiores bairros (Horácio Fernandes Fontes, Centro e Miguel dos Anjos) reúnem 60,2% desse grupo, quase a mesma fatia que têm dos eleitores (60,7%). Não há um bairro decisivo: o esforço precisa ser distribuído, e os maiores simplesmente somam mais. Só Horácio Fernandes Fontes concentra 28% do grupo.
Onde pesa mais: a proporção
O mapa abaixo mostra a taxa de abstenção por bairro. Ela vai de 17,9% (Horácio Fernandes Fontes) a 22,4% (Temístocles de Santana), com média de 19,0% no município.
Quando se somam abstenções, brancos e nulos e se compara com os eleitores aptos, os bairros em que o grupo pesa mais são:
- Temístocles de Santana: 26,6% (Lula 80,6%)
- Miguel dos Anjos: 25,1% (Lula 69,5%)
- Padre José Gumercindo: 24,7% (Lula 71,9%)
A média do município é de 23,3%. Nesses três bairros Lula já passa de 69% dos votos válidos, o que os torna prioritários para quem quer ampliar a base sem depender de convencer o eleitor do adversário.
Brancos e nulos: pouco volume, ação direta
Entre os que foram votar, 931 votaram em branco ou anularam, 5,2% do comparecimento. A distribuição é mais uniforme que a da abstenção:
- Mais brancos e nulos: Simpliciano Fernandes Filho (5,7%), Horácio Fernandes Fontes e Miguel dos Anjos (5,5%)
- Menos brancos e nulos: Boquim Velho (3,4%)
A correlação entre a taxa de brancos e nulos e a votação em Lula nos bairros é de 0,52: onde Lula é mais forte, um pouco mais de votos deixam de ser válidos. Com apenas sete bairros, é um sinal fraco, e não prova que o eleitor de Lula seja o que mais anula. Os dados também não dizem por que isso acontece. Pode ser protesto, indecisão ou erro na urna.
Há um indício a favor do erro: cerca de 51% dos eleitores de Boquim não completaram o ensino fundamental (analfabetos, que apenas leem e escrevem, ou fundamental incompleto). Se parte dos nulos for dificuldade com a urna, orientar o voto é uma das ações mais diretas para recuperar esses votos.
Simulação: quanto rende mobilizar
Para dimensionar o ganho possível, duas simulações simples, com a premissa de que os eleitores trazidos de volta votariam como os atuais de cada bairro:
- Abstenção: se todos os bairros chegassem ao nível do melhor, Horácio Fernandes Fontes (17,9%), entrariam cerca de 247 eleitores. Lula ganharia 178 votos e Flávio, 56, um saldo de 122 votos para Lula.
- Brancos e nulos: se 10% deles virassem voto válido, seriam 93 votos, dos quais cerca de 62 para Lula.
A lição é que mobilizar sem direcionar rende pouco, porque o eleitor que volta também pode votar no adversário. O ganho depende de quem é alcançado, e não só de quantos. Em Temístocles de Santana, onde Lula tem 80,6% dos votos, cada ausente trazido de volta tem muito mais chance de render voto para ele do que em Boquim Velho, onde Flávio tem 34,0%.
O que esses dados não respondem
- Em quem os ausentes votariam. Não existe dado individual de abstenção. Nos sete bairros, a abstenção é maior onde Lula tem mais vantagem (correlação de 0,83), o que é animador, mas com tão poucos pontos esse resultado pode ser acaso e não garante que o ausente seja eleitor de Lula.
- Quanto da abstenção é voto facultativo. Analfabetos (5,8% do eleitorado), jovens de 16 e 17 anos (1,7%) e maiores de 70 anos (10,6%) não são obrigados a votar. Parte da abstenção é escolha legal, e não descaso, e é mais difícil de converter.
- Por que votaram em branco ou anularam.
- Onde o eleitor mora. Os votos por bairro usam o local de votação, e as seções da zona rural foram associadas ao bairro mais próximo.
Por onde começar
- Volume: Horácio Fernandes Fontes, Centro e Miguel dos Anjos, onde estão mais eleitores sem voto válido.
- Proporção: Temístocles de Santana, Miguel dos Anjos e Padre José Gumercindo, onde o grupo pesa mais e Lula já é folgadamente favorito.
- Brancos e nulos: orientação de voto, com atenção ao eleitor de baixa escolaridade, em Simpliciano Fernandes Filho, Horácio Fernandes Fontes e Miguel dos Anjos.
- Validar: cruzar com o perfil do eleitorado por bairro (idade, escolaridade, gênero) e com pesquisa de campo, para saber quem são os ausentes, quais deles votam por obrigação e em quem votariam.
Como os dados foram tratados
- Fontes: TSE (dados abertos de eleitorado e locais de votação), Base dos Dados (resultados e abstenções por seção) e malha de bairros do IBGE (Censo 2022).
- Votos por bairro: o TSE informa o local de votação de cada seção. Cada local foi associado ao bairro do IBGE em que fica, e os votos foram somados. O eleitor nem sempre mora perto de onde vota, então os números por bairro são uma aproximação.
- Percentuais: os de voto são calculados sobre os votos dados aos candidatos. As taxas de brancos e nulos usam os eleitores que compareceram, e a soma de abstenções, brancos e nulos usa os eleitores aptos.
- Simulações: partem da premissa de que os eleitores trazidos de volta votariam como os atuais de cada bairro. São ordens de grandeza, e não previsões.
- Cores do primeiro mapa: mostram só quem foi o mais votado. Uma vitória de 5 pontos e uma de 35 têm a mesma cor, então vale conferir o hover.
- Poucos bairros: o município tem sete bairros no recorte, então correlações e médias entre bairros são frágeis.
Análise feita em Python (pandas, geopandas e plotly).
Quem sou eu
Oi, eu sou o Luiz Felipe. Trabalho como cientista de dados no Grupo Boticário e ainda estou na estrada da Ciência da Computação na Universidade Federal de Sergipe. Fora das telas, sou angoleiro na Lineart Capoeira Angola e nacionalista negro, de orientação Garveyista.